América "Latina" ?
 
 

Há certas denominações que nos soam familiares, que nos acostumamos a ouvir e repetir desde que nos entendemos por gente, que sabemos bem o que querem dizer e que nos parecem de uma verdade cabal e cristalina. É o caso da expressão "América Latina" como sinônimo de América do Sul. O que há de errado nela? É uma identidade cultural que corresponde a um lugar geográfico, e pronto. Como, entretanto, muitas vezes as palavras não são mero instrumento de codificar idéias, mas trazem em si um significado pré-concebido que pode não corresponder ao que desejamos exprimir, cumpre aqui fazer uma pausa e verificar: o que queremos realmente dizer?

Aparentemente, quando nos referimos a esta parte do mundo como América Latina, queremos dizer que ela integra uma suposta civilização latina multinacional. Faz algum sentido. Esta parte do continente foi colonizada pelos países ibéricos, que são considerados nações latinas porque compartilham determinadas tradições, como a língua, herdadas do antigo Império Romano do Ocidente. Os norte-americanos referem-se aos sul-americanos como latinos, e simetricamente, a América do Norte deveria ser chamada de "América Anglo-Saxônica" (mas na prática não o é) em razão da sua origem. Mas afinal, até que ponto esses rótulos possuem alguma verdade histórica e sociológica?

Comecemos por levantar o sentido original da expressão "povo latino". Os latinos antigos eram os habitantes do Latium, região da Itália central, cuja língua falada era o latim e cuja capital era Roma. Convencionou-se chamar de latinos aos povos originados da desintegração do Império Romano do Ocidente: Portugal, Espanha, França, Itália, parte da Suíça, parte da Bélgica e Romênia. Como conseqüência de sua origem comum, estes povos nos dias de hoje compartilham algumas características, como a língua derivada do latim, a religião católica romana, e outros aspectos menores. Mas é uma identidade muito vaga: um português não tem muita semelhança com um belga, nem um francês tem muita semelhança com um romeno; na verdade, ele não se parece muito nem com um suíço-francês. Pergunto-me, então: se esta identidade já tem um sentido tão vago em seu local de origem, por que ela continua sendo aplicada com tanta ênfase à América do Sul, lugar onde os colonos europeus foram apenas um dos componentes no caldeirão de misturas, entre povos nativos, africanos, orientais e europeus não-latinos?

De antemão, que se pode concluir é que, se esta denominação é tão disseminada por aí afora, certamente que tem algum valor expressivo. Examinando a história: o termo surgiu pela primeira vez em meados do século XIX, época em que o imperador Napoleão III nutria ambições imperialistas na América Central, tendo já invadido o México e colocado no poder um títere, o imperador Maximiliano. É claro que este novo domínio, esta "América Latina" deveria ser regida pela França, a mais importante nação latina. Como se sabe, Napoleão III abdicou após a derrota na guerra franco-prussiana, e logo em seguida Maximiliano foi derrubado e fuzilado, sepultando de vez o sonho de uma América francesa. Mas o nome pegou. Houve um motivo para isso: ele era uma boa solução para o problema criado pela ambigüidade do termo "América", que designava tanto um uma expressão geográfica (o continente) quanto uma expressão política (os americanos chamam seu país de Estados Unidos da América). Desta forma, na terminologia de jornalistas e historiadores, América Latina passou a ser a denominação de qualquer lugar no continente americano que não estivesse integrado política ou culturalmente aos EUA. Ou seja, todo o resto.

Mas se isso resolveu um problema para os norte-americanos, criou outro problema para nós. Pegar dezenas de países em um enorme continente, e colocar todos sob um rótulo "América Latina", é enfiá-los em um saco de gatos. Fica assim criada a expectativa - falsa - de que todos os sul-americanos são estritamente análogos. É isto o que acreditam os norte-americanos, que chamam de latino a qualquer índivíduo que vem do sul do Rio Grande; é isto também o que nós, eventualmente, queremos acreditar. Mas que identidade é essa que, supostamente, compartilhamos? A maioria dos países sul-americanos são "melting-pots", onde os latinos são apenas um dos componentes da mistura. O que, por exemplo, tem de comum o Brasil e o Peru? Foram partes de impérios diferentes, seus povoadores vieram de diferentes partes do mundo, seus povos nativos pertenciam a etnias completamente distintas. Brasileiros e peruanos sequer falam a mesma língua. Os países sul-americanos não são iguais aos do sul da Europa, nem tampouco são iguais uns aos outros. Um argentino considera-se mais aparentado com um europeu do que com um brasileiro. Nós, brasileiros, viajamos com mais freqüência para a Flórida do que para qualquer um de nossos vizinhos sul-americanos. Apesar disso tudo, a ilusão de uma "América Latina" culturalmente homogênea continua forte nos dias de hoje. A pressuposição de uma estrita equivalência entre todos os latino-americanos é o ponto de partida para toda sorte de análises errôneas e abordagens equivocadas, seja no terreno da economia, da política ou da sociologia. A crise da Argentina faz desabar a credibilidade da Venezuela, e vice-e-versa. Conforme apontou João Ubaldo Ribeiro, também a literatura dessa parte do mundo é rotulada nas bibliotecas e universidades estrangeiras como "Literatura Latino-Americana". Como se este rótulo fizesse mais sentido que "Literatura Européia" ou "Literatura Africana", ou se as obras de Vargas Llosa, Jorge Amado e Jorge Luis Borges fossem análogas apenas porque estes autores nasceram no mesmo continente. João Ubaldo também estranhou: por que as estantes de literatura latino-americana não trazem também obras de autores franco-canadenses de Quebec? Afinal, eles também são latinos.

É verdade que, para muitos sul-americanos, a idéia de um "bloco latino-americano" é reconfortante. Dá uma idéia de coesão, de identidade, de oposição ao bloco anglo-americano. Alguns líderes políticos chegam a levar a sério a ilusão, como o revolucionário romântico Che Guevara, que, vitorioso em Cuba, foi para a Bolívia propagar a revolução, perfeitamente convencido de que cubano e boliviano era tudo a mesma coisa. Não era. Para muitos europeus e norte-americanos, igualmente, a ficção de uma "civilização latino-americana" é uma solução conveniente para extirpar estes países terceiro-mundistas do Bloco Ocidental, que assim pode apresentar-se ao mundo como contendo apenas países desenvolvidos. Coisa análoga ao que era feito até pouco tempo atrás com o sul da Europa, pobre e atrasado, que os habitantes do norte relutavam em aceitar como parte de seu mundo, e alguns ainda dizem que a África começa em Roma (ou nos Pirineus). Mas na América do Sul, mais distante, é mais fácil por a imaginação a funcionar. Desta forma, também, atende-se ao desejo do cidadão comum dos países do norte, que gosta de imaginar a América do Sul como exótica, peculiar, selvagem, plena de vigorosas culturas nativas e intocada pela civilização ocidental. Uma boa quantidade de imagens de índios e onças sepulta a desagradável evidência de que o Mundo Ocidental pode, sim, conter países subdesenvolvidos.

 

 

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