Pedagogia do Oprimido?
 
 

Um herói nacional absolutamente inconteste é o educador Paulo Freire, autor de "A Pedagogia do Oprimido" e inventor de um método revolucionário de alfabetização de adultos. Espécie de Santos Dumont às avessas, aquele que efetivamente inventou o avião, mas que nunca foi reconhecido fora do país, Paulo Freire sempre gozou de entusiástico reconhecimento internacional, embora nunca tenha feito rigorosamente coisa alguma. Passados tantos anos, não tenho conhecimento de um único lugar no planeta onde o método Paulo Freire tenha sido experimentado em larga escala e tenha efetivamente alcançado os resultados que propugnava. É certo que por aqui ele foi impedido de aplicar seu método, mas isto não é desculpa. Esteve em vários outros lugares, na América Latina e na África, e que eu saiba o analfabetismo continua alto nestas paragens. Culpa de quem? Dele com certeza não há de ser, a julgar pela popularidade que desfruta. Sua figura barbuda e monástica sempre foi bem-vinda nos palanques das mais prestigiosas universidades do mundo, talvez porque ele encarne tudo aquilo que o primeiro mundo acha que um intelectual de terceiro mundo deve ser: barbudo, monástico, que diz coisas que fazem os olhos lacrimejar, mas sem nenhuma coerência lógica ou utilidade prática. Dizer coisa com coisa? Que atrevimento! O rigor científico e a eficácia dos métodos são coisas que o primeiro mundo acha que devem ser exclusivas do primeiro mundo.

Mas convém aqui dar uma examinada em suas teorias, para tentar, ao menos, descobrir porque tanta gente as considera bonitinhas. As citações que reproduzo abaixo podem ser encontradas em qualquer biografia de Paulo Freire.

"Paulo Freire é, sem dúvida alguma, um educador humanista e militante. Em concepção de educação parte-se sempre de um contexto concreto para responder a esse contexto. Em Educação como prática da liberdade, esse contexto é o processo de desenvolvimento econômico e o movimento de superação da cultura colonial nas 'sociedades em trânsito'. O autor procura mostrar, nessas sociedades, qual é o papel da educação, do ponto de vista do oprimido, na construção de uma sociedade democrática ou 'sociedade aberta'. Para ele, essa sociedade não pode ser construída pelas elites porque elas são incapazes de oferecer as bases de uma política de reformas. Essa nova sociedade só poderá se constituir como resultado da luta das massas populares, as únicas capazes de operar tal mudança"

"O diálogo proposto pelas elites é vertical, forma o educando-massa, impossibilitando-o de se manifestar"

De cara se reconhece a dicotomia que é a pedra angular da retórica marxista: colonizador X colonizado, oprimido X opressor, elite X massa. Ou colocando em outras palavras, nós X eles, inocentes X culpados, bons X maus. Não há categorias intermediárias. Ao enunciar a "educação como prática de liberdade", fica implícito que a educação (ou deseducação) proporcionada pelas elites é responsável por manter o "oprimido" em seu estado de alienação, impedido de se manifestar.

"Sua obra Pedagogia do oprimido completaria suas concepções pedagógicas acerca das diferenças entre a pedagogia do colonizador e a pedagogia do oprimido. Nela, sua ótica de classe aparece mais nitidamente: a pedagogia burguesa do colonizador seria a pedagogia 'bancária'. A consciência do oprimido, diz ele, encontra-se 'imersa' no mundo preparado pelo opressor; daí existir uma dualidade que envolve a consciência do oprimido: de um lado, essa aderência ao opressor, essa 'hospedagem' da consciência do dominador - seus valores, sua ideologia, seus interesses - e o medo de ser livre e, de outro, o desejo e a necessidade de libertar-se. Trava-se, assim, no oprimido, uma luta interna que precisa deixar de ser individual para se transformar em luta coletiva: 'ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão'"

Afirma Paulo Freire, a pedagogia "burguesa" maliciosamente traria uma mensagem subliminar exortando o educando (o "oprimido") a se conformar com o seu estado de opressão (hospedar o opressor dentro de si). A educação "libertadora" o levaria a rebelar-se contra o opressor.

"A partir da tese sobre a relação entre a educação e o processo de humanização, Paulo Freire caracteriza duas concepções opostas de educação: a concepção 'bancária' e a concepção 'problematizadora'"

"Na concepção bancária (burguesa), o educador é o que sabe e os educandos, os que não sabem; o educador é o que pensa e os educandos, os pensados; o educador é o que diz a palavra e os educandos, os que escutam docilmente; o educador é o que opta e prescreve sua opção e os educandos, os que seguem a prescrição; o educador escolhe o conteúdo programático e os educandos jamais são ouvidos nessa escolha e se acomodam a ela; o educador identifica a autoridade funcional, que lhe compete, com a autoridade do saber, que se antagoniza com a liberdade dos educandos, pois os educandos devem se adaptar às determinações do educador; e, finalmente, o educador é o sujeito do processo, enquanto os educandos são meros objetos"

"A educação bancária tem por finalidade manter a divisão entre os que sabem e os que não sabem, entre os oprimidos e opressores. Ela nega a dialogicidade, ao passo que a educação problematizadora funda-se justamente na relação dialógico-dialética entre educador e educando; ambos aprendem juntos"

Paulo Freire define como "bancária" a pedagogia burguesa, comparando os educandos a meros depositários de uma bagagem de conhecimentos que deve ser assimilada sem discussão. Paradoxalmente, esta modalidade de educação teria como objetivo não equalizar os conhecimentos entre educador e educando, mas sim "manter a divisão entre os que sabem e os que não sabem, entre os oprimidos e os opressores". O educador é necessariamente um opressor.

"A partir dessa sua prática, criou o método, que o tornaria conhecido no mundo, fundado no princípio de que o processo educacional deve partir da realidade que cerca o educando. Não basta saber ler que 'Éva viu a uva', diz ele. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho."

Para Paulo Freire, o alto índice de analfabetismo que caracteriza as regiões rurais miseráveis não seria parte de uma síndrome de pobreza e atraso, mas uma condição deliberadamente imposta pelas elites para manter o povo em um estado de ignorância, e desta forma eternizar seu domínio sobre ele. Cumpre esclarecê-lo sobre a sua situação de "oprimido" e a causa desta "opressão". A educação só terá valor se conduzir os educandos coletivamente à rebelião contra este estado de coisas.

Isto tudo é uma mistificação tão óbvia que a vontade é parar por aqui mesmo, já que a fragilidade dos argumentos e a real intenção pragmática destes "educadores" fica patente a qualquer um que não queira ser enganado por sua livre e espontânea vontade. Mas já que comecei, disponho-me a apontar uma a uma as contradições e as distorções da teoria e do método Paulo Freire.

A primeira falha que aponto é a ausência de uma definição explícita de "oprimido" e "opressor", termos que Freire emprega desde a primeira linha, mas cujo sentido só é percebido pelo contexto: o oprimido é o pobre analfabeto, aquele que deve ser educado, e o opressor é, por exclusão, todos os demais. Entretanto, sabe-se que a palavra "pobre" é mais usada como substantivo do que como adjetivo, designando um status permanente, enquanto "oprimido" é um adjetivo que expressa uma situação ocasional de opressão. Ao tornar um substantivo sinônimo de um adjetivo, Freire está afirmando que é a opressão que causa a pobreza. O pobre (substantivo) é pobre (adjetivo) porque é oprimido; não fosse oprimido ele não seria pobre. O estado natural da humanidade supostamente seria o da abastança; é a "opressão" que cria o pobre. Eliminando-se a opressão, todos retornariam a este estado natural feliz de abastança. Mas que fatos e números comprovam esta tese? Toda pobreza é resultado da opressão? Ou existe pobreza causada por fatores puramente estruturais, como a insuficiência dos meios de produção? Os ricos também podem sofrer opressão, e os pobres também podem ser de algum modo opressores? Estas questões não são respondidas. E se, após eliminar-se a "opressão" mediante uma revolução, ainda assim o quadro de miséria persistir, desta vez por mera insuficiência dos meios de produção? Teria-se que decidir se o papel de "opressor" agora cabe ao subsolo, que não produziu minérios, à nuvem que não choveu em cima da plantação, ou à constante gravitacional G, que é pequena e não permite que a usina gere muita eletricidade...

Logo de saída, há uma enorme contradição na argumentação de Freire. Ele afirma que o quadro de miséria e opressão é resultado da educação burguesa "bancária", que conteria uma mensagem subliminar incitando o povo a se submeter às elites. Mas se a massa de "oprimidos" é analfabeta, e por conseguinte nunca recebeu educação alguma, burguesa ou não, como pode ser estabelecida esta relação causa-efeito? Se a educação "bancária" é geradora de miséria e opressão, devemos concluir que, ao menos para aquele grupo de pobres analfabetos com quem Freire trabalhava, não foi ela a responsável por causar sua miséria, uma vez que eles nunca tiveram educação alguma. E os poucos que puderam freqüentar a escola e se tornaram objetos da educação burguesa, o que aconteceu com eles? Tornaram-se ainda mais pobres e conformados com sua situação de oprimidos? Dá vontade de imaginar uma professorinha primária do nordeste saindo de manhã cedo para trabalhar, percorrendo os caminhos a dar risadas sarcásticas, antegozando o resultado de seu projeto maquiavélico de transformar os filhos dos agricultores em adultos dóceis, e assim perenizar o poder da riquíssima oligarquia à qual ela pertence... Como uma professorinha que ganha um salário de poucos tostões pode ser considerada parte de uma elite, é questão que Freire não está preocupado em responder.

E além disso, de que modo uma mensagem relativamente complexa, que incita ao conformismo e afirma a legitimidade das autoridades, pode ser camuflada em meio ao bê-á-bá e ao 2+2=4? Uma mensagem assim só é concebível no ensino médio, em uma matéria como História, Moral e Cívica e OSPB, na qual um professor distorça fatos para afirmar a excelência dos governantes e a necessidade de se obedecer a eles. E de fato, diversos regimes totalitários em diferentes épocas já se utilizaram deste expediente para doutrinar a juventude. Mas um aluno que conseguiu atingir o ensino médio é alguém prestes a se formar e a se habilitar a um emprego, alguém que sabe ler jornais e noticiários, e desta forma tem condições de perceber quando o professor lhe ensina uma falsidade. Uma pessoa assim ainda pode ser considerada "oprimida"? A princípio, este rótulo só caberia ao camponês analfabeto miserável.

Freire taxa a educação burguesa de "bancária", reduzindo o aluno a mero depositário de ensinamentos, e propõe a educação "problematizadora" fundada na dialogicidade. "Na concepção bancária (burguesa), o educador é o que sabe, e os educandos, os que não sabem", afirma Paulo Freire. Ninguém definiu melhor o que é um professor e o que é um aluno. O professor é o profissional que sabe uma coisa que o aluno não sabe, e seu trabalho consiste justamente de passar-lhe este conhecimento, ou "depositar" este conhecimento no aluno, como preferir. A educação "bancária" é, simplesmente, o único tipo de educação que existe. Evidente que o professor não é o dono da verdade, e tudo aquilo que hoje é Ciência um dia já foi experiência e elucubração, produto do trabalho de alguém que era um ser humano falível, como eu e você. Assim sendo, toda matéria ensinada na escola necessariamente tem tópicos polêmicos e questões em aberto, e inclusive é obrigação do bom professor chamar a atenção de seus alunos para estes pontos e incitar a discussão e o debate em torno deles. Mas, como qualquer professor sabe, o debate só será proveitoso após os alunos haverem atingido um nível mínimo de aprendizado, que os permita, inclusive, compreender as falhas teóricas e práticas que tornam aqueles pontos discutíveis. Até este nível ser atingido, a educação é "bancária", e não pode ser diferente.

Freire afirma que a "libertação" através da educação só é válida se for um esforço coletivo: "Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão". Mas no entanto, é difícil conceber ato mais individual do que a descoberta. A descoberta ou o entendimento de um dado fato nunca é coletiva, pois os indivíduos tem percepções diferentes e interpretações diferentes: cada um tem a sua versão e o seu entendimento. Um professor cuja proposta não é ensinar, mas sim levar o aluno a um estado de "esclarecimento", na verdade comete um estelionato: ele está passando ao aluno um pacote de conclusões previamente tiradas, ao mesmo tempo que dá ao aluno a ilusão de que é ele mesmo que está tirando aquelas conclusões. A função (honesta) do professor é ministrar ensinamentos de forma neutra e não-tendenciosa, de modo que o aluno tenha condições de entender aquilo que observa a sua volta, e desta forma tirar suas próprias conclusões e chegar a seu próprio estado de esclarecimento. Mas, como bem o sabem os políticos de palanque, os pastores de certas igrejas evangélicas e os animadores de programas de auditório, a ignorância torna o indivíduo impressionável, e tendo-se um pouco de magnetismo pessoal, não há dificuldade alguma em colocar uma multidão de ignaros a berrar palavras-de-ordem, slogans religiosos ou simplesmente idiotices. Bem mais difícil é fazer isto com um grupo de pessoas cultas, pois estas pessoas, tendo sido objeto da educação burguesa "bancária", efetivamente se libertaram da ignorância que predispõe à manipulação. Freire e outros educadores marxistas vislumbraram uma oportunidade única de ministrar mensagens revolucionárias em larga escala, disfarçadas em uma educação "problematizadora" onde o assunto das aulas é a opressão dos latifundiários. Difícil conceber situação mais cômoda: aqueles indivíduos, sendo analfabetos miseráveis, eram rebeldes em potencial; eles nem precisavam ir ao encontro destes, estes é que vinham a seu encontro nas salas de aula; e para cúmulo, era o próprio governo que estava pagando para que eles preparassem a revolução! Como se sabe, as coisas não correram como eles planejavam, e Freire teve que se contentar em sair pelo mundo a comover as platéias internacionais com as suas boas intenções. O triste é saber que, na mesma época em que Freire urdia seus modelos teóricos sobre Educação, um outro povo também subdesenvolvido - os sul-coreanos - simplesmente pegavam no livro e estudavam, sem querer saber se a educação deveria ser "bancária" ou "problematizadora".

 

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