A Tal da Revolução Burguesa  
 

Escreveu George Orwell em 1984 - o romance, não o ano - aquele que controla o passado, controla o futuro. E aquele que controla o presente, controla o passado. Com esta argumentação, justificava a faina de seu personagem, funcionário do Estado totalitário, ocupado em continuamente reescrever os textos que narravam fatos ocorridos no passado sempre que os protagonistas destes acontecimentos caíam em desgraça, ou quando assim o exigiam as razões de estado. Evidente que ninguém imagina, no mundo real, um poder que detenha tal monopólio de informações a ponto de mudar todo o passado a seu bel prazer sem que as pessoas percebam a fraude. Mas a idéia faz sentido: manipulando os fatos históricos, dando-lhes uma interpretação conveniente, é possível fazer os incautos crerem em uma seqüência de causas e conseqüências que supostamente vem desde o início dos tempos e assim prosseguirá pelo futuro adentro. Pode-se criar galerias de personagens "bons" e "maus", e mostrar quem deve ser exaltado e quem deve ser combatido. Pode-se, sobretudo, dar ao fulano a sensação de que ele está incluído entre esses personagens, e portanto ele é agente de transformações históricas ora em curso, cabendo-lhe seguir na direção certa, o lado do bem, o bom combate. Dessa forma, apenas retocando-se o passado, sem precisar apagá-lo e reescrevê-lo, é possível incutir nas pessoas idéias e atitudes que efetivamente materializarão um futuro projetado.

E o que não falta por aí é gente interessada em manipular o passado, agindo consciente ou inconscientemente. Acredito que a isso se deve o meu prazer em estudar História nas horas vagas: tenho a sensação de estar matando uma charada, compondo um quebra-cabeças que irá me revelar um desenho que estou curioso em descobrir. O estudo de História, para mim, nunca é enfadonho. Não estou acrescentando detalhes a episódios cujas linhas gerais eu já conhecia; ao contrário, a toda hora estou descobrindo que as coisas não eram nada daquilo que eu pensava antes. Em suma, a toda hora experimento o sabor da descoberta, e pressinto que não viverei o suficiente para descobrir e compreender como e porque chegamos aonde chegamos. Melhor para mim, pois não me faltará distração! Também exercito transportar-me para outras épocas, outros locais e outras culturas, e tentar contemplá-las com olhos de nativo ao invés de olhos estrangeiros, sem, contudo, perder a discernimento adquirido graças à minha bagagem de conhecimentos. Isso me dá uma sensação de atemporalidade, de ser um cidadão de todos os lugares e todas as épocas, ao invés de cidadão brasileiro do século XXI. Evidente que é apenas uma sensação - é impossível eu me despir, de todo, de meu contexto cultural e temporal, assim como são limitados o meu estoque de informações e a minha capacidade de discernir. Mas é uma sensação inebriante, da qual não pretendo abrir mão.

Havendo descoberto que muitas coisas, no passado, não aconteceram exatamente como me ensinaram na escola, escolho uma delas para expor aqui neste artigo. Refiro-me às revoluções ditas "burguesas", entre as quais destacam-se a Revolução Francesa e a Revolução Americana. Não discuto que tais eventos efetivamente fundaram a Idade Moderna em que ainda estamos vivendo, e que suas conseqüências não são passado, mas presente. Discuto, isso sim, o epíteto com que essa revoluções são conhecidas quase que unanimemente: o que é, afinal, uma revolução da burguesia?

Hoje, sei que este rótulo foi criado por Karl Marx quase um século após, e posteriormente endossado por um sem-número de historiadores e cientistas políticos, mesmo aqueles que nada tinham de marxistas. Mas sei também que, se o passado histórico é imutável, o sentido das palavras muda, sim, e bastante. A conotação que hoje tem uma palavra, por exemplo, "democracia", é diferente da conotação que tinha no início do século XIX, quando denotava um regime utópico pregado por revolucionários irresponsáveis, e que difere completamente do sentido que tinha quando foi criada dois milênios e meio atrás, em Atenas, quando meramente significava a divisão do eleitorado em distritos chamados "demos". Do mesmo modo, a palavra "burguês" originalmente referia-se aos habitantes dos burgos (cidades). Tinha inicialmente uma conotação de liberdade, pois durante a Idade Média as cidades eram um espaço não controlado diretamente pelos senhores feudais, de modo que seus habitantes eram livres para escolher a ocupação que desejassem, e inclusive fundar corporações com regras próprias. No século XIX, Marx tornou a palavra sinônimo de uma classe social, mais precisamente, da classe rica: um burguês seria alguém proprietário de alguma coisa, um grande banqueiro, industrial, comerciante, fazendeiro, contraposto ao proletário, que só possuía sua força de trabalho. Isto pouco tinha a ver com a acepção original do termo - alguns burgueses, efetivamente, enriqueciam, mas os burgos também eram habitados por uma multidão de aprendizes, artesãos, feirantes, carroceiros, domésticos, desocupados. Com o tempo, o sentido marxista do termo tornou-se norma, e ainda adquiriu um certo tom pejorativo: hoje em dia, ninguém duvida que um burguês é alguém rico, particularmente alguém ostensivamente rico.

Segundo Marx, foi com a vitória das ditas revoluções burguesas que a burguesia assumiu seu papel de classe dominante, derrotando a nobreza e ao mesmo tempo subjugando a classe trabalhadora. Ao menos trata-se do que é ensinado nas salas de aula. Mas desde quando rico faz revolução? Será que foram gordos banqueiros e impávidos comerciantes que derrubaram os portões da Bastilha e saíam pelas ruas levando a cabeça dos guilhotinados na ponta dos chuços? Certamente que não! Os revolucionários eram a gentalha das cidades e dos campos, referidos como os sans-cullotes e os bras-nus. Essa multidão agia como dócil fantoche dos ricaços burgueses, que seriam a verdadeira classe revolucionária? Meio difícil de acreditar. Mas nem tudo está perdido: estudando-se a História nas entrelinhas - mais precisamente, evitando as análises prontas, e procurando compor os fatos a partir de fragmentos descontextualizados, porém de indiscutível veracidade, chega-se a um quadro que pode diferir bastante daquilo que é ensinado por aí.

Primeiro de tudo, é bom lembrar que a alta burguesia, em especial os banqueiros, desde a renascença eram bons aliados de reis e nobres, que constituíam seus principais clientes. Ao que tudo indica, permaneceram aliados durante todo o processo revolucionário "burguês" - sabe-se que quando Luís XVI empreendeu sua tentativa de fuga em Varennes, levava consigo um passaporte falso e o dinheiro de banqueiros parisienses. Esses senhores tinham bons motivos para tanta lealdade: temiam não mais ver a cor de seu dinheiro, caso seus clientes favoritos perdessem a cabeça na guilhotina. Chamar a revolução francesa de "burguesa", portanto, é mais do que ser simplista, é ser contraditório.

Segundo de tudo, os filósofos iluministas que forneceram a base ideológica da revolução eram todos gente muito bem relacionada tanto com nobres quanto com ricos burgueses, cujos salões freqüentavam com gosto e lá eram bem recebidos. Em seus escritos, não demonstraram ver grande diferença entre nobres e alta burguesia, muito menos os consideraram classes antagônicas.

Terceiro de tudo, os militantes que efetivamente pegaram em armas nada tinham de burgueses. Foram unanimemente descritos como pertencentes à escória da sociedade (romanticamente vistos, mas escória). Na França, os já citados sans-cullotes e bras-nus. Nos EUA, os soldados de Whashington foram descritos como uma multidão andrajosa, muitos não tinham nem sapato. Uma noite mais fria no inverno causava mais baixas que a artilharia britânica. Não é difícil entender porque é assim: só arrisca tudo quem não tem nada a perder. Essas pessoas aventuravam-se na revolução, no primeiro momento, porque estavam com a cabeça quente, e depois, porque já não podiam voltar atrás. Mas com certeza essa malta, em geral analfabeta, nada entendia das teorias dos filósofos que embasavam a revolução e que faziam a cabeça dos letrados.

O que, então, sucedeu de fato naquele final de século XVIII? Quanto à revolução americana, sabe-se que foi uma revolta de contribuintes que não queriam pagar impostos. De resto, o corte dos laços com a Inglaterra em nada alterou a sociedade local - aliás, as designações "nobre" e "burguês" sequer aplicavam-se aos norte-americanos, pois lá só havia cidadãos. Quanto à revolução francesa, considerada a revolução burguesa por excelência, temos algumas pistas. Acostumamo-nos a imaginar a França de Luís XVI como constituída de massas miseráveis, oprimidas por uma pequena elite de privilegiados, até que a situação de miséria e opressão atingiu um ponto tal que provocou incontrolável explosão revolucionária. Os fatos históricos não confirmam este quadro. Sabe-se hoje que a França de então era um país próspero, onde as condições materiais de todas as classes sociais, com exceção da nobreza rural, vinham melhorando continuamente. É certo que havia o fermento revolucionário das idéias dos filósofos iluministas, mas conforme eu já disse, filósofos não fazem revolução - é preciso que os pé-rapados se enfureçam e derrubem a ordem vigente, para que uma nova turma de mandatários e burocratas influenciados pelos filósofos assuma seu lugar. Isto realmente aconteceu. Mas quem, ou o que, fez o caldo entornar e deu curso aos acontecimentos?

O que ocorreu foi o seguinte: a França de então se encontrava na situação contraditória de ser um país próspero com um governo falido. Vivia-se, na verdade, o esgotamento da fórmula urdida por Luís XIV para por fim à oposição da nobreza ao absolutismo. Este rei solucionou suas querelas com os nobres das províncias ao erigir o Palácio de Versalhes e convidá-los a vir habitar a nova corte, atraindo-os com uma plêiade de sinecuras, pensões e mordomias. Desta forma, estava criando uma nova modalidade de nobreza - a Nobreza da Corte, que não possuía feudos nas províncias, mas vivia exclusivamente dos altos cargos que ocupava. Os resultados imediatos foram eficazes - corrompidos pelo rei, os nobres ocuparam sinecuras bem pagas e deixaram de fazer oposição, contentando-se com a sensação de fazer parte do governo, quando na verdade toda a autoridade cabia ao rei. Mas, evidentemente, aquela não era uma solução barata. O custo de manter tantos cargos inúteis, o luxo da corte, a crescente arrogância dos protegidos, ávidos por mais cargos e mais pensões, tudo isso produzia imensos déficits orçamentários e endividamento. A bancarrota era sempre adiada, e acabou estourando nas mãos do pacato Luís XVI, por triste ironia um monarca bem mais consciencioso e menos tirânico que seus antecessores. Encurtando a história: a partir do instante em que ficou patente que o rei tencionava cobrir seus rombos à custa do contribuinte, aumentando os impostos, eclodiu generalizada rebelião em todas as classes sociais.

Em todas, exceto duas: a nobreza da corte, por razões óbvias, e a alta burguesia, por estar financeiramente comprometida com o governo. Como pode-se ver, a revolução francesa foi tudo, menos uma revolução "burguesa", na acepção marxista do termo: revoltaram-se todos, desde o pé-rapado das ruas, assustado com a carestia, até os nobres sem cargos na corte, indignados com a menção do rei em por fim a seus privilégios de isenção de impostos (não por acaso, muitos revolucionários de primeira hora pertenciam à nobreza, como o conde Mirabeau e Felipe Egalité). Só não se revoltou a burguesia. Sob certos aspectos, a revolução francesa foi análoga à revolução americana, pois constituiu, tal como esta, uma rebelião de modestos contribuintes que não queriam pagar impostos. Mas ao contrário dos EUA, o cobrador de impostos não era um rei do outro lado do oceano, com quem bastasse cortar os laços e continuar vivendo como sempre, nem tampouco os franceses do fim do século XVIII eram cidadãos, pois ainda se encontravam em grande medida vigentes as obrigações feudais. Por este motivo, o processo revolucionário francês foi muito mais complexo e traumático, resultando em mudanças muito mais profundas. No primeiro momento, entretanto, longe de conduzir a burguesia ao poder, a revolução provocou foi caos econômico, terror e empobrecimento de todas as classes sociais. A institucionalização da nova ordem só viria a ser implementada bem depois por Napoleão Bonaparte, uma criatura pós-revolucionária, ou mesmo anti-revolucionária, já que foi ele quem definitivamente enquadrou os radicais jacobinos. Mas a nova ordem instituída por Napoleão, um imperador guerreiro talentoso como jurista, pode ser definida como "burguesa", ou meramente "cidadã"? Deixo a discussão desta filigrana para os especialistas. Mas não me parece que o poder econômico dos burgueses em 1815 fosse muito diferente do que era em 1789.

Hoje parece-me que o objetivo de Karl Marx, ao definir as revoluções de seu tempo como burguesas, era desqualificá-las e apresentar seu projeto revolucionário socialista como sendo o único genuíno. De resto, não só tais revoluções não serviram para conduzir a burguesia ao poder, conforme eu mostrei, como tampouco vejo grande diferença entre os discursos dos filósofos do século XVIII e os discursos do próprio Marx. Uma explicação para o porquê de parecer tão verossímil, hoje em dia, rotular de burguesas a essas revoluções, reside no fato de os ideais defendidos por elas haverem sido encampados por uma classe média conservadora, característica dos países desenvolvidos, que acredita que seu bem-estar emana dos direitos então conquistados. Desta forma, aqueles episódios revolucionários "aburguesaram-se" em nossa imaginação. Na realidade, quem efetivamente pegou em armas não foram tranqüilos cidadãos da classe média, mas os pé-rapados da época, aliás os ancestrais da atual classe média européia e norte-americana. E com certeza, os eventos foram bem mais sangrentos que românticos.

 

 

 

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